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"Deve ser fácil ter sentimentos heróicos quando por natureza se é insensível, e pensar em quilômetros quando não se sabe que plenitude pode ocultar-se em cada milímetro! – Às vezes o chamavam de Ulo, como tinham feito na infância, e ele gostava, como se conserva pela babá um respeito risonho.
-Ele parou em ponto morto!
-Hoje em dia está tudo em ruínas! Um abismo de inteligência!
-Não se consegue adivinhar nenhuma profissão pela aparência dele, mas por outro lado também não parece um homem sem profissão.
Pense um pouco em como ele é: sempre sabe o que deve fazer, sabe olhar nos olhos de uma mulher; sabe refletir bastante sobre qualquer coisa a qualquer momento; sabe lutar boxe. É talentoso, cheio de vontade, despreconceituoso, corajoso, resistente, destemido, prudente. Não quero examinar isso em detalhes, acho que ele tem todas essas qualidades. Mas também não as tem! Elas fizeram dele aquilo que ele é, e determinaram seu caminho, mas não lhe pertencem. Quando fica zangado, alguma coisa nele ri. Quando está triste, rumina alguma coisa. Quando algo o comove, ele o rejeita. Qualquer má ação lhe parecerá boa em algum aspecto. É um possível contexto que vai determinar o que ele pensa de um assunto. Para ele, nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo, de incontáveis todos, que provavelmente fazem parte de um supertodo, mas que ele absolutamente não conhece. Assim, todas as respostas dele são respostas parciais, cada um de seus sentimentos é apenas um ponto de vista, e para ele não importa o que a coisa é, e sim um secundário 'como é'. Não sei se estou me fazendo entender." (MUSIL, Robert - O homem sem qualidades)
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